O pico diminuiu. A concentração calculada caiu. Antes de atribuir o resultado à degradação da amostra ou a uma falha instrumental, uma pergunta merece espaço na investigação. Quanto do analito continua disponível na solução que será injetada?
Entre o preparo e a análise, parte das moléculas pode interagir com a superfície do recipiente. O equipamento passa a medir uma solução cuja composição já foi alterada pelo contato com o próprio frasco. Esse fenômeno, a adsorção, pode comprometer a recuperação e a quantificação, especialmente em baixas concentrações.
Material do recipiente, tratamento superficial, composição da solução e tempo de contato deixam, assim, de ser detalhes acessórios. São condições que precisam entrar na avaliação do procedimento analítico.
A superfície também faz parte do método
Na adsorção, moléculas se acumulam na superfície de um material. Em recipientes de vidro, grupos silanol podem participar de ligações de hidrogênio e de interações eletrostáticas com espécies carregadas positivamente. Em materiais poliméricos, interações hidrofóbicas também podem contribuir para a retenção de determinados compostos. A importância de cada mecanismo depende do analito, da superfície e do meio em que ocorre o contato.[1]
Por isso, classificar o recipiente apenas como vidro ou plástico oferece informação insuficiente para prever seu desempenho. Tratamentos superficiais e diferenças entre produtos podem modificar a interação com a amostra.
A documentação técnica da Waters ressalta que algumas biomoléculas adsorvem menos ao polipropileno do que ao vidro, enquanto outras apresentam o comportamento inverso. A recomendação é avaliar experimentalmente os recipientes destinados à aplicação específica.[5]
Trocar o material pode ser uma hipótese de solução. Demonstrar sua adequação exige comparação.
Uma perda demonstrada em laboratório
Um estudo publicado em 2024 na Scientific Reports investigou perdas de tiamina, a vitamina B1, em materiais empregados no processamento de amostras. Os pesquisadores observaram que o contato com determinados recipientes e filtros podia reduzir substancialmente a quantidade recuperada.[1]
Evidência experimental
De um padrão de 100 nmol/L, foram recuperados 19,3 nmol/L de tiamina após armazenamento em frascos de vidro para amostrador automático.
O resultado se refere às condições e aos materiais avaliados no estudo. Não representa uma taxa de perda aplicável a outros analitos ou a qualquer frasco de vidro.[1]
O trabalho também identificou diferenças entre formas químicas da vitamina e entre materiais. O achado mostra por que a investigação deve acompanhar o comportamento do composto de interesse, em vez de se apoiar em uma classificação genérica do consumível.
Quanto menor a concentração, maior a atenção
Uma perda que passa despercebida em uma solução concentrada pode se tornar relevante após diluições. Conforme diminui a quantidade de analito disponível, a parcela retida na superfície pode representar uma fração maior do total, afetando a recuperação e o comportamento da resposta analítica.[4]
Em uma avaliação técnica da Shimadzu, uma solução aquosa de clorexidina a 1 mg/L foi distribuída em diferentes recipientes e analisada após 24 e 72 horas. Foram observadas diferenças de recuperação e de comportamento ao longo do tempo. Os resultados foram expressos em relação à resposta obtida em frascos de polipropileno, utilizada como referência naquele experimento.[4]
A implicação para o desenvolvimento analítico é direta. O desempenho observado em uma solução concentrada não basta para demonstrar a adequação do recipiente na região inferior da faixa de trabalho.
A solução modifica a interação
A superfície não atua de forma isolada. O líquido em que o analito está dissolvido também influencia a interação com o recipiente.
Em um estudo publicado em 2024 na Chemistry, A European Journal, pesquisadores desenvolveram um ensaio para caracterizar propriedades de adsorção de superfícies utilizando uma mistura de peptídeos e análise por LC-MS/MS. Nos experimentos com solução aquosa de ácido fórmico a 0,1%, recipientes de polipropileno sem modificação superficial apresentaram adsorção significativa de peptídeos.[2]
O exemplo reforça a necessidade de avaliar o conjunto. Um material que apresenta desempenho satisfatório em determinada aplicação pode produzir resultados diferentes com outro analito ou outra composição de solução.
O tempo de contato pode mudar o resultado
Analisar uma solução logo após o preparo e reinjetá-la depois de um período prolongado de armazenamento são condições distintas de exposição ao recipiente.
Falls e Baker avaliaram seis PFAS em combinações de frascos e insertos de vidro e polipropileno. O estudo utilizou metanol e água na proporção 40:60, com acetato de amônio a 3 mmol/L, e comparou análises realizadas no primeiro dia e no dia 32, após armazenamento a −20 °C.[3]
As combinações avaliadas apresentaram diferenças superiores a 10% na área de pico para pelo menos quatro dos seis compostos entre os dois momentos. As autoras observaram efeitos associados à adesão às superfícies e à evaporação. Esses dados pertencem à configuração estudada e não estabelecem um limite geral de estabilidade.[3]
Para a rotina, a consequência é incluir na avaliação o intervalo real entre preparo, permanência no amostrador e eventuais reinjeções.
Queda de resposta não comprova adsorção
A redução da área de pico é um sinal para investigar. Isoladamente, ela não identifica o mecanismo responsável.
Em uma nota de aplicação, a Waters demonstrou a formação de produtos de degradação de drospirenona e lovastatina em determinados frascos de vidro. O fenômeno foi associado à liberação de espécies capazes de alterar o pH da solução e favorecer a hidrólise dos compostos nas condições estudadas.[6]
Três mecanismos que merecem ser distinguidos
Adsorção. Parte do analito fica associada à superfície e sua disponibilidade na solução pode diminuir.
Degradação. O analito sofre transformação química, com possível formação de outros compostos.
Evaporação. A perda de solvente pode alterar o volume e a concentração da solução.
No estudo com PFAS, os sistemas de fechamento também integravam a comparação experimental. Por isso, atribuir todas as diferenças exclusivamente ao vidro ou ao polipropileno simplificaria uma situação que envolve material, geometria, vedação e armazenamento.[3]
Como transformar a suspeita em evidência
Uma comparação controlada entre recipientes ajuda a avaliar a hipótese de perda associada ao contato com superfícies. O roteiro abaixo é uma proposta técnica de investigação, não um protocolo normativo.
- Partir de uma solução comum. Distribuir alíquotas entre os recipientes candidatos, controlando volume, temperatura, fechamento e manipulação. Considerar também o recipiente utilizado antes dessa distribuição.
- Incluir concentrações relevantes. Comparar níveis representativos da faixa de trabalho, com atenção à região inferior de quantificação.
- Reproduzir o tempo de uso. Avaliar o momento inicial e intervalos que representem a sequência analítica e as reinjeções previstas.
- Utilizar recipientes independentes. Injeções repetidas do mesmo frasco não substituem a avaliação da variabilidade entre frascos.
- Acompanhar o sistema analítico. Intercalar verificações instrumentais para reduzir o risco de confundir mudanças da amostra com variações do equipamento.
- Investigar explicações concorrentes. Avaliar brancos, precipitação, alterações de volume e produtos de degradação, conforme a capacidade do método.
Número de réplicas, intervalos de avaliação e critérios de aceitação devem ser definidos conforme o objetivo analítico e o desempenho necessário. Uma resposta maior em determinado frasco, por si só, não demonstra recuperação completa nem identifica o mecanismo da diferença.
A escolha do recipiente merece ser documentada
Material, tratamento superficial, fabricante, lote, volume de solução e condições de armazenamento são informações úteis para tornar a avaliação reproduzível. Quando a adequação é demonstrada experimentalmente, a escolha do frasco passa a ter fundamento no desempenho do método.
Na análise em baixas concentrações, compreender o que acontece antes da injeção é parte essencial de compreender o resultado.
Referências
- Edwards, K. A. et al. Pre-analytical challenges from adsorptive losses associated with thiamine analysis. Scientific Reports, 14, 10269, 2024.
DOI 10.1038/s41598-024-60910-0. - Siebels, B. et al. Assay for Characterizing Adsorption-Properties of Surfaces (APS). Chemistry, A European Journal, 2024.
DOI 10.1002/chem.202403000. - Falls, A. T.; Baker, E. S. Selecting the Correct Autosampler Vial and Insert to Improve Reproducibility and Accuracy in Mass Spectrometry Analyses. International Journal of Mass Spectrometry, 517, 117499, 2025.
DOI 10.1016/j.ijms.2025.117499. - Shimadzu. Tips for LC and LC/MS Analysis, Vial Selection. Interactions to Be Aware of When Using Vials.
Consultar documento técnico. - Waters. Do polypropylene vials show less adsorption of biomolecules versus traditional glass vials? WKB24623.
Consultar documento técnico. - Berthelette, K. D. et al. The Effect of Sample Vials on Analyte Stability. Mitigating In-Vial Degradation of Pharmaceuticals During LC Analysis. Waters, 2022.
Consultar nota de aplicação.








