O motivo é conhecido por quem trabalha com análise de traços. O instrumento mede apenas a fração do analito que sobreviveu ao preparo, foi separada da matriz e chegou ao sistema em condições adequadas para produzir resposta. Quando o composto de interesse está presente em quantidade muito pequena diante de uma matriz farmacêutica constituída por princípio ativo, excipientes e outros componentes, aumentar a capacidade instrumental não elimina automaticamente os problemas anteriores à injeção.
Essa discussão ganha um novo exemplo em 2026. Um trabalho publicado no Journal of Chromatography A apresenta fibras de solid-phase microextraction, SPME, revestidas com polímero hiper-reticulado de porosidade hierárquica para enriquecimento e determinação sensível de impurezas N-nitrosamínicas em produtos farmacêuticos. A arquitetura do revestimento foi concebida para combinar elevada capacidade de adsorção e transferência de massa, atacando justamente uma das etapas críticas da análise em níveis traço: retirar o analito de uma matriz complexa e apresentá-lo ao sistema instrumental em condições mais favoráveis.
A relevância vai além do novo material. Ela recoloca uma pergunta fundamental para o desenvolvimento analítico:
Nitrosaminas continuam exigindo métodos analíticos particularmente sensíveis
A presença de nitrosaminas em medicamentos permanece sob acompanhamento das principais autoridades sanitárias. A FDA distingue atualmente duas grandes categorias: nitrosaminas de pequena molécula e as chamadas nitrosamine drug substance-related impurities (NDSRIs), que apresentam similaridade estrutural com o próprio princípio ativo e tendem a ser específicas de cada substância farmacêutica. A agência mantém limites de ingestão aceitável e informações técnicas atualizadas para diferentes compostos, com revisões realizadas inclusive em 2026.
Essa diversidade química é importante do ponto de vista analítico. “Nitrosamina” não define, por si só, um comportamento cromatográfico, uma volatilidade, uma eficiência de extração ou uma resposta em espectrometria de massas.
O método precisa ser desenvolvido para os compostos efetivamente incluídos em seu escopo.
Nos Estados Unidos, a FDA recomenda que, quando uma avaliação de risco indicar possibilidade de formação de nitrosaminas, o teste confirmatório utilize métodos sensíveis e adequadamente validados. A própria agência disponibiliza procedimentos baseados em diferentes configurações de LC-HRMS, LC-ESI-HRMS, GC-MS e GC-MS/MS, evidenciando que não existe uma única arquitetura instrumental apropriada para todas as situações.
No Brasil, a RDC nº 677/2022 e o Guia nº 50/2021, versão 2, estabeleceram o arcabouço específico da Anvisa para avaliação e controle de nitrosaminas em IFAs e medicamentos. A Agência mantém ainda assunto regulatório específico para avaliação de limites de segurança dessas impurezas.
Nada disso determina que a SPME deva ser utilizada. O ponto é outro: quanto menores e mais críticos os níveis a serem controlados, mais relevante se torna cada etapa responsável por recuperar o analito e reduzir interferências.
O que a SPME muda no preparo da amostra
A microextração em fase sólida utiliza uma pequena fase extratora, frequentemente depositada sobre uma fibra ou outro suporte, para estabelecer interação entre os compostos presentes na amostra e o revestimento.
Em vez de realizar uma extração convencional seguida de várias etapas de manipulação, a SPME pode combinar amostragem, extração e pré-concentração em uma mesma operação. Dependendo da configuração, a fibra entra diretamente em contato com a amostra ou com o espaço de cabeça acima dela.
É importante fazer uma distinção: SPME não significa necessariamente extração exaustiva. Em muitas aplicações, a técnica trabalha por partição e transferência de massa sob condições cuidadosamente controladas. Por isso, tempo, temperatura, agitação, composição da matriz e características da fase extratora influenciam diretamente o desempenho.
Revisões recentes destacam entre suas vantagens a redução da quantidade de sorvente e de solventes, a possibilidade de pré-concentração e a integração mais simples com etapas instrumentais.
Mas a fibra não é apenas um suporte físico para carregar a amostra até o cromatógrafo.
Quando o revestimento passa a ser uma variável analítica
É justamente nesse ponto que o trabalho de 2026 chama atenção.
O estudo descrito no Journal of Chromatography A utiliza um polímero hiper-reticulado, ou HCP, como revestimento da fibra SPME. A proposta explora uma estrutura com poros distribuídos em diferentes escalas para favorecer adsorção e transporte dos analitos.
Os HCPs pertencem a uma família de polímeros orgânicos porosos que vem recebendo crescente atenção em preparo de amostras. Uma revisão publicada em 2025 na Analytica Chimica Acta destaca como características relevantes desses materiais a elevada porosidade, grande área superficial, arquitetura de poros ajustável e flexibilidade química para introdução de diferentes funcionalidades.
Essas propriedades interessam à SPME porque a extração depende da interface entre analito e fase extratora.
Mais área disponível pode ampliar o número de sítios acessíveis. A distribuição de tamanho dos poros interfere no acesso das moléculas ao interior do material. A composição química da superfície influencia quais interações serão favorecidas.
O desafio está em transformar essas características estruturais em desempenho analítico reproduzível.
Um revestimento experimental pode ser altamente promissor e ainda precisar demonstrar estabilidade, homogeneidade entre fibras, eficiência de dessorção, resistência química, vida útil e comportamento em diferentes matrizes antes de chegar a uma rotina de controle.
Por isso, seria prematuro interpretar o novo trabalho como evidência de que fibras hiper-reticuladas já são superiores às opções consolidadas para análise farmacêutica. Os dados disponíveis para esta apuração sustentam o conceito e a aplicação proposta, mas não permitem uma comparação completa com revestimentos comerciais em todos os parâmetros de validação.
O valor científico da pauta está no princípio: a engenharia do material extrator pode ser uma estratégia para melhorar a etapa pré-analítica em vez de concentrar toda a busca por sensibilidade na instrumentação.
SPME já aparece em outras estratégias para nitrosaminas
O interesse pela técnica nesse campo não depende de um único estudo.
Em janeiro de 2026, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina publicaram na Talanta um método baseado em headspace-SPME acoplada a GC com detector de nitrogênio e fósforo, destinado à triagem e quantificação de seis nitrosaminas em comprimidos de losartana.
A estratégia é bastante diferente daquela do novo artigo do Journal of Chromatography A. Utiliza extração no espaço de cabeça, outro sistema de detecção e outra concepção metodológica. Ainda assim, demonstra que a SPME está sendo investigada como ferramenta efetiva para levar a preparação de amostras de nitrosaminas a configurações mais simples e com baixo consumo de solventes. Os autores relataram validação e aplicação a amostras de losartana.
Esse trabalho brasileiro é particularmente interessante porque ajuda a separar duas questões que às vezes aparecem misturadas.
Uma é a sensibilidade do detector.
Outra é a quantidade e a qualidade do analito que o preparo consegue entregar ao detector.
SPME atua principalmente na segunda.
Pré-concentrar não significa simplesmente produzir um sinal maior
Quando o analito está em nível traço, a ideia de enriquecê-lo antes da determinação parece intuitivamente vantajosa. Mas o ganho precisa ser avaliado em todo o processo.
Um revestimento que apresenta alta afinidade precisa permitir dessorção eficiente. Uma fase seletiva deve manter desempenho diante da matriz real. Uma fibra capaz de produzir excelente resposta nas primeiras extrações precisa continuar operando dentro de critérios definidos ao longo de seu uso.
Da mesma forma, alcançar um limite de detecção baixo em solução padrão não resolve sozinho a análise de um medicamento.
O laboratório precisa saber como a matriz interfere na extração, se ocorre competição por sítios da fase, se existem perdas durante o preparo, se há carryover entre amostras e se a resposta permanece estável entre fibras e diferentes dias analíticos.
Esse raciocínio é coerente com a orientação regulatória vigente. A FDA exige métodos sensíveis e apropriadamente validados para testes confirmatórios quando o risco de nitrosaminas é identificado.
Não detector.
Nem toda nitrosamina poderá ser tratada da mesma forma
A ampliação recente da discussão para NDSRIs torna essa cautela ainda mais importante.
A FDA define as NDSRIs como nitrosaminas estruturalmente relacionadas ao princípio ativo. Elas formam um universo químico muito mais diverso que o conjunto tradicional de pequenas nitrosaminas, como NDMA e NDEA.
Isso significa que uma estratégia de SPME bem-sucedida para determinados compostos não deve ser automaticamente extrapolada para toda a classe.
Volatilidade, polaridade, tamanho molecular, estado de ionização e capacidade de interação com o revestimento podem mudar substancialmente.
A mesma lógica vale para a técnica instrumental. Métodos baseados em headspace são particularmente atraentes para compostos compatíveis com a transferência para fase gasosa. Para outras estruturas, LC-MS pode oferecer uma janela analítica mais apropriada.
A escolha começa pelo analito, não pela plataforma.
O preparo também pode controlar o efeito de matriz
Outro aspecto relevante é o que a fibra deixa para trás.
Em métodos acoplados à espectrometria de massas, componentes de matriz podem alterar a eficiência de ionização e comprometer a relação entre concentração e resposta. Em GC, coextrativos podem afetar o sistema de introdução, a separação ou a detecção.
Uma fase extratora com seletividade adequada pode cumprir duas funções simultâneas: concentrar o analito e restringir parte dos interferentes que chegariam ao instrumento.
Isso ajuda a explicar por que o desenvolvimento de novos revestimentos recebe tanta atenção.
A literatura recente sobre SPME baseada em materiais poliméricos mostra justamente a tentativa de combinar maior enriquecimento com reconhecimento químico mais seletivo em matrizes complexas. Uma revisão de 2025 no Journal of Chromatography A reúne avanços em fases de SPME baseadas em polímeros molecularmente impressos para resíduos farmacêuticos e destaca seletividade, efeitos de matriz e interferências entre os pontos centrais desse desenvolvimento.
Em 2025, outro estudo do mesmo periódico empregou um polímero hiper-reticulado como revestimento de SPME para uma impureza genotóxica em formulações farmacêuticas, mostrando que essa arquitetura de materiais já vinha sendo explorada no contexto de controle de impurezas.
O trabalho de 2026 com nitrosaminas, portanto, integra uma tendência maior de projetar a fase extratora como componente ativo da seletividade analítica.
A fibra também precisa ter ciclo de vida
Para uma aplicação rotineira, um bom resultado inicial não basta.
O laboratório precisaria caracterizar pontos como estes:
| Aspecto | Pergunta prática |
|---|---|
| Seletividade | O revestimento diferencia adequadamente os analitos dos componentes da matriz? |
| Recuperação | A fração extraída é suficientemente consistente ao longo da faixa de trabalho? |
| Precisão | Fibras diferentes e usos sucessivos produzem respostas comparáveis? |
| Dessorção | O analito é liberado de forma eficiente antes da determinação? |
| Carryover | Há material residual capaz de contaminar a amostra seguinte? |
| Robustez | Pequenas variações de tempo, temperatura ou agitação afetam significativamente o resultado? |
| Estabilidade | O revestimento mantém suas propriedades químicas e mecânicas durante o uso? |
| Vida útil | Quantos ciclos podem ser realizados antes que o desempenho deixe de atender aos critérios definidos? |
| Reprodutibilidade de fabricação | Diferentes lotes de fibras apresentam comportamento equivalente? |
| Matriz | Excipientes e princípio ativo alteram extração ou resposta instrumental? |
Não há um número universal de ciclos ou um único critério adequado para todas as fibras. A resposta depende do desenho do método, do revestimento, do analito, da matriz e da finalidade.
Esse é um ponto especialmente importante quando um material desenvolvido academicamente começa a ser considerado para utilização industrial.
A passagem da prova de conceito para o controle de qualidade exige que a inovação do sorvente seja acompanhada por controle do próprio sorvente.
Sensibilidade também é uma decisão de engenharia do método
A análise de nitrosaminas costuma ser apresentada como um problema de detecção ultrassensível. É, de fato, uma parte importante do desafio. Mas essa descrição é incompleta.
Sensibilidade prática resulta de uma cadeia.
Amostragem, extração, seletividade do revestimento, enriquecimento, eliminação de interferentes, dessorção, separação e detecção participam do mesmo resultado.
Se a matriz reduz a recuperação antes da análise, um espectrômetro mais sensível estará medindo uma amostra pior com maior sensibilidade.
Se o preparo concentra o analito e reduz interferentes de maneira reprodutível, o ganho pode aparecer antes mesmo de qualquer mudança na plataforma instrumental.
Essa distinção também ajuda a colocar o novo revestimento de SPME em perspectiva.
O avanço mais interessante não é simplesmente produzir “mais sinal”. É tentar controlar de maneira mais eficiente a interface entre a amostra farmacêutica e o sistema de medição.
O contexto regulatório continua evoluindo
A discussão analítica acompanha um cenário regulatório que permanece ativo em 2026.
A FDA atualizou em agosto deste ano informações de ingestão aceitável para determinadas nitrosaminas e mantém uma página técnica dinâmica com limites, questões emergentes e métodos analíticos recomendados.
Na Europa, a EMA mantém a avaliação de risco, testes confirmatórios e mitigação como responsabilidades ao longo do ciclo de vida dos medicamentos. O apêndice europeu de ingestões aceitáveis para N-nitrosaminas recebeu atualização em junho de 2026.
No Brasil, a regulamentação específica da Anvisa mantém o tema inserido na avaliação e no controle de IFAs e medicamentos.
O ICH M7(R2), por sua vez, fornece a estrutura internacional para avaliação e controle de impurezas mutagênicas reativas com DNA, dentro de uma abordagem que combina risco de segurança e gestão da qualidade.
Nenhum desses referenciais favorece uma tecnologia de preparo específica.
E isso talvez seja justamente o aspecto mais relevante para o desenvolvimento analítico: a plataforma precisa provar desempenho para o problema ao qual será aplicada.
Antes de trocar o detector, vale olhar para a amostra
O surgimento de fibras SPME com novos polímeros porosos amplia o repertório disponível para resolver um problema que acompanha toda análise em níveis traço.
Quanto do composto presente no medicamento chega efetivamente ao detector?
A pergunta parece simples, mas envolve seletividade, equilíbrio de extração, transporte de massa, interferentes, estabilidade, dessorção e variabilidade do próprio dispositivo de preparo.
Na análise de nitrosaminas, essa discussão ganha peso porque o resultado precisa combinar baixa concentração, elevada confiança e matrizes farmacêuticas que podem variar substancialmente.
O novo estudo publicado no Journal of Chromatography A não encerra essa questão. Ele aponta uma direção: engenharia de materiais e preparo de amostras podem participar ativamente da busca por maior desempenho analítico, em vez de deixar toda a responsabilidade para o cromatógrafo e o detector.
Quando a concentração é muito baixa, cada etapa anterior à leitura passa a contar.
Referências
Hierarchically porous hyper-crosslinked polymer-coated SPME fibers for enrichment and sensitive detection of N-nitrosamine genotoxic impurities in pharmaceutical products. Journal of Chromatography A, 2026. DOI: 10.1016/j.chroma.2026.467440.
GERMANO, A. T.; MICKE, G. A.; VITALI, L. A novel green HS/SPME-GC/NPD method for screening and quantification of nitrosamines in solid samples: Application to losartan tablets. Talanta, v. 296, 128514, 2026. DOI: 10.1016/j.talanta.2025.128514.
Recent advances in synthesis and applications of hyper-crosslinked porous organic polymers for sample pretreatment: A review. Analytica Chimica Acta, v. 1355, 343934, 2025. DOI: 10.1016/j.aca.2025.343934.
YAN, J. et al. Recent advances in molecular-imprinting-based solid-phase microextraction for determination of pharmaceutical residues. Journal of Chromatography A, v. 1754, 466016, 2025. DOI: 10.1016/j.chroma.2025.466016.
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EUROPEAN MEDICINES AGENCY. Nitrosamine impurities: guidance for marketing authorisation holders. EMA.
ANVISA. RDC nº 677/2022 e Guia nº 50/2021, versão 2: controle de nitrosaminas em IFAs e medicamentos.
ICH. M7(R2): Assessment and Control of DNA Reactive (Mutagenic) Impurities in Pharmaceuticals to Limit Potential Carcinogenic Risk.








