A transição para modelos produtivos sustentáveis tornou-se um imperativo econômico para a indústria brasileira, e não apenas uma agenda ambiental. Nesse contexto, a química verde emerge como um vetor estratégico capaz de transformar processos, reduzir impactos e reposicionar o país na economia global. Mais do que um conjunto de princípios, ela representa uma mudança estrutural que redefine insumos, tecnologias e a própria lógica de competitividade industrial.
Os números mostram que essa transformação não é apenas desejável: trata-se de um mercado em plena expansão. De acordo com a Global Market Insights, o mercado global de química verde movimentou cerca de US$ 113 bilhões em 2024 e deve crescer a uma taxa média anual próxima de 11%, podendo alcançar aproximadamente US$ 290 bilhões até 2034. Em segmentos específicos, como os químicos sustentáveis de base biológica, as projeções indicam taxas de crescimento superiores a 8% ao ano, enquanto mercados mais amplos associados a produtos verdes apresentam CAGR entre 10% e 12%. Esse dinamismo revela uma oportunidade concreta para países que conseguirem alinhar inovação, política industrial e sustentabilidade.
O Brasil, nesse cenário, ocupa posição privilegiada. A indústria química nacional opera em cadeias integradas ao agronegócio, à energia e à produção de materiais, o que confere ao país vantagens estratégicas. Além disso, a abundância de biomassa e matérias-primas renováveis, como a cana-de-açúcar, torna o país um terreno fértil para rotas químicas alternativas. Exemplos já consolidados, como o polietileno verde produzido a partir do etanol, demonstram a viabilidade econômica de processos baseados em carbono renovável e evidenciam que a química verde pode gerar produtos de alto valor agregado com inserção global.
A transição exige investimento pesado em pesquisa, desenvolvimento e inovação, áreas nas quais o Brasil ainda apresenta lacunas estruturais. A ausência de políticas públicas robustas, voltadas especificamente para a bioeconomia e a inovação química sustentável, limita a escalabilidade de tecnologias que poderiam posicionar o país como referência global. Além disso, a falta de integração entre empresas, universidades e centros de pesquisa reduz a velocidade de desenvolvimento de rotas tecnológicas competitivas.
Ainda assim, ignorar a química verde não é uma opção. Mercados internacionais, especialmente o europeu, já tratam critérios ambientais como condição de acesso comercial. Produtos com alta pegada de carbono, processos poluentes e cadeias opacas tendem a perder espaço. Nesse contexto, adotar princípios da química verde não é apenas uma estratégia ambiental. Países que lideraram essa transição terão vantagens em financiamento, inovação e participação em cadeias globais de valor.
Ela, portanto, deve ser vista como um pilar central da reindustrialização sustentável brasileira, pois já oferece soluções para reduzir custos, melhorar eficiência, diminuir a dependência de insumos importados e agregar valor a recursos abundantes no país. Mais do que isso: a química verde representa a oportunidade de construir uma indústria alinhada às demandas do século XXI.
Por fim, concluo que, se o Brasil souber articular políticas públicas, incentivo à inovação e integração entre ciência e mercado, poderá transformar sua riqueza natural em liderança tecnológica. Isso porque a química verde não é apenas um caminho possível para uma indústria mais competitiva, limpa e preparada para o futuro.
*Selmo Soares é Gerente Executivo de Inovação e Desenvolvimento da Viapol, empresa do grupo americano RPM, referência em soluções químicas para a construção civil, especializada em impermeabilização, recuperação estrutural, aditivos e revestimentos.



