O sinal caiu. A concentração também?

O pico ficou menor. A primeira suspeita recai sobre a extração. Mas há outra possibilidade. O analito pode ter chegado à fonte de ionização e produzido menos sinal por causa dos compostos que chegaram com ele.

Esse é um dos desafios do efeito de matriz em LC-MS/MS. A resposta depende da quantidade de analito introduzida e das condições em que seus íons são formados e detectados. Componentes coeluentes podem suprimir ou aumentar essa resposta, comprometendo a quantificação quando o método não controla adequadamente o fenômeno.

O trabalho de Matuszewski, Constanzer e Chavez-Eng, publicado em 2003 na Analytical Chemistry, estabeleceu uma abordagem experimental para distinguir efeito de matriz e recuperação da extração. Essa distinção continua sendo fundamental para interpretar o desempenho de métodos baseados em cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas.[1]

O que acontece quando a matriz chega à fonte

Na ionização por electrospray, ESI, a solução é submetida a um processo que gera gotículas carregadas e permite a formação de íons em fase gasosa. A presença de outras espécies pode modificar esse processo.

Entre os mecanismos discutidos na literatura estão a competição por carga e alterações nas propriedades das gotículas. O resultado pode ser uma diminuição da resposta, chamada supressão de ionização, ou um aumento, conhecido como intensificação da ionização. A intensidade do efeito depende do composto e das condições analíticas.[4]

O problema também ocorre fora das matrizes biológicas. Em uma nota de aplicação com pesticidas em águas ambientais, a Agilent demonstrou diferenças associadas à matriz e avaliou sua redução por extração em fase sólida online. A comparação incluiu águas ultrapura, de abastecimento, subterrânea e de rio, mostrando por que soluções com a mesma concentração nominal podem apresentar respostas diferentes.[7]

A seletividade do MS/MS não elimina a supressão

Monitorar uma transição específica ajuda a distinguir o analito de possíveis interferentes. Entretanto, a seleção dos íons não impede que componentes da matriz alterem a ionização antes da análise de massas.

Assim, a ausência de um pico interferente evidente não comprova ausência de efeito de matriz. O cromatograma pode parecer satisfatório enquanto a resposta do analito está sendo modificada. Essa limitação integra a discussão experimental apresentada por Matuszewski e colaboradores sobre a seletividade de métodos baseados em HPLC-MS/MS.[1]

Um cromatograma visualmente limpo não demonstra, por si só, que a ionização permaneceu inalterada.

Três preparações para separar os fenômenos

Para distinguir efeito de matriz, recuperação da extração e eficiência global do processo, uma estratégia utiliza três conjuntos de preparações.

Conjunto Preparação Função na comparação
A Analito em solução sem matriz. Estabelecer a resposta de referência.
B Matriz branca processada e fortificada após a extração. Avaliar a resposta na presença dos componentes que permaneceram no extrato.
C Matriz branca fortificada antes da extração e submetida ao preparo completo. Avaliar o efeito combinado do preparo e da matriz residual.

As comparações precisam considerar quantidades equivalentes de analito, volumes finais, diluições e condições de injeção. A fortificação após a extração permite investigar a alteração da resposta sem submeter o analito às perdas das etapas anteriores ao ponto de adição.

Já a comparação entre fortificações antes e depois da extração permite estimar a recuperação das etapas compreendidas entre esses dois pontos do procedimento.[5,6]

Cada relação responde a uma pergunta

Como a matriz altera a resposta?

Fator de matriz = resposta B ÷ resposta A.

Um fator inferior a 1 indica supressão. Um fator superior a 1 indica intensificação. Um valor próximo de 1 sugere pequena alteração da resposta nas condições avaliadas.[5]

Quanto o preparo recupera?

Recuperação da extração (%) = resposta C ÷ resposta B × 100.

Essa comparação utiliza duas preparações com matriz residual, diferenciadas pelo momento de adição do analito.[6]

Qual é o efeito global do processo?

Eficiência global do processo (%) = resposta C ÷ resposta A × 100.

Essa relação combina o efeito das etapas de preparo com a influência da matriz na resposta. Portanto, não deve ser interpretada automaticamente como recuperação da extração.[5]

A nomenclatura também exige cuidado. Alguns trabalhos expressam o efeito de matriz em uma escala na qual 100% representa ausência de alteração. Outros utilizam 0% como referência. Registrar a equação empregada evita interpretações opostas para um mesmo valor.[5]

A infusão pós-coluna revela onde o sinal muda

A fortificação após a extração avalia o comportamento do analito nas condições de sua análise. A infusão pós-coluna acrescenta uma informação complementar, o perfil de alteração da resposta ao longo da corrida.

Uma solução do composto é introduzida continuamente após a coluna, geralmente por uma conexão em T, antes da fonte. Enquanto isso, o extrato da matriz percorre o sistema cromatográfico.

Comparando o sinal durante a injeção do extrato com uma corrida de referência sem matriz, é possível identificar regiões de supressão ou intensificação. Essas regiões podem ser confrontadas com o tempo de retenção do analito.[4]

González, Dubbelman e Hankemeier demonstraram aplicações dessa abordagem na avaliação do tratamento de amostras e na identificação de fontes inesperadas de efeito de matriz. O trabalho destaca sua utilidade para acompanhar o desempenho analítico além do desenvolvimento inicial.[3]

Um exemplo mostra por que a coeluição importa

Em uma nota de aplicação, pesquisadores da Waters investigaram o surfactante Triton X-100 em plasma e sua remoção por extração em fase sólida de modo misto.

No método estudado, os analitos não coeluíam com o Triton. A infusão pós-coluna permitiu, porém, observar o potencial de supressão durante a passagem do surfactante pela fonte. A remoção do composto reduziu esse efeito nas condições experimentais avaliadas.[6]

O exemplo evidencia uma distinção prática. A presença de um componente capaz de causar supressão precisa ser interpretada junto com seu comportamento cromatográfico e sua coincidência temporal com o analito.

O padrão interno ajuda, mas precisa ser adequado

O ICH M10 recomenda, sempre que possível, utilizar o analito marcado com isótopos estáveis como padrão interno em métodos com detecção por espectrometria de massas.

O documento também destaca cuidados com pureza isotópica, troca isotópica e presença de analito não marcado no padrão. A adequação precisa ser demonstrada durante a validação.[2]

Compensar a resposta e reduzir a interferência são objetivos distintos. A normalização pelo padrão interno não dispensa a avaliação experimental do comportamento do método em diferentes amostras.

Uma matriz não representa todas as amostras

A composição pode variar entre fontes e lotes. Por isso, demonstrar desempenho em um único extrato não caracteriza toda a variabilidade relevante.

O que o ICH M10 prevê no seu escopo bioanalítico

A avaliação do efeito de matriz prevê pelo menos três réplicas de controles em concentrações baixa e alta, preparados com matrizes de pelo menos seis fontes ou lotes diferentes.

Para cada fonte ou lote, a exatidão deve ficar dentro de ±15% da concentração nominal e o coeficiente de variação não deve exceder 15%. O documento contempla disposições específicas para matrizes raras.[2]

Esses critérios pertencem ao escopo do guia. Sua aplicação não deve ser automaticamente estendida a qualquer método ambiental, industrial ou de alimentos.

A intervenção depende do diagnóstico

Quando a investigação aponta efeito de matriz, as possibilidades incluem melhorar a limpeza do extrato, modificar a separação e avaliar a diluição. Cada escolha exige verificar o desempenho resultante.[5,7]

  • Diluição. Pode diminuir a interferência, mas também reduz a concentração do analito e exige atenção à capacidade de quantificação.
  • Limpeza do extrato. Uma etapa mais seletiva precisa reduzir componentes interferentes e preservar recuperação adequada.
  • Separação cromatográfica. Alterações devem ser acompanhadas por uma nova avaliação da região em que o analito passa a eluir.

A pergunta que orienta a investigação é mais precisa do que simplesmente perguntar por que o pico caiu. É necessário estabelecer se houve perda durante o preparo, alteração da resposta na presença da matriz ou combinação dos dois fenômenos.

Em LC-MS/MS, compreender o sinal exige investigar tanto a quantidade de analito recuperada quanto o ambiente químico em que ela é medida.

Referências

  1. Matuszewski, B. K.; Constanzer, M. L.; Chavez-Eng, C. M. Strategies for the Assessment of Matrix Effect in Quantitative Bioanalytical Methods Based on HPLC-MS/MS. Analytical Chemistry, 75(13), 3019–3030, 2003.
    DOI 10.1021/ac020361s.
  2. ICH/FDA. M10 Bioanalytical Method Validation and Study Sample Analysis. Guidance for Industry, 2022.
    Consultar documento oficial.
  3. González, O.; Dubbelman, A.-C.; Hankemeier, T. Postcolumn Infusion as a Quality Control Tool for LC-MS-Based Analysis. Journal of the American Society for Mass Spectrometry, 33(6), 1077–1080, 2022.
    DOI 10.1021/jasms.2c00022.
  4. Zhu, P. et al. Development of an Untargeted LC-MS Metabolomics Method with Postcolumn Infusion for Matrix Effect Monitoring in Plasma and Feces. Journal of the American Society for Mass Spectrometry, 35(3), 590–602, 2024.
    DOI 10.1021/jasms.3c00418.
  5. Universidade de Tartu. Quantitative estimation of matrix effect, recovery and process efficiency. Material de ensino de validação de métodos por LC-MS.
    Consultar material.
  6. Danaceau, J. P.; Chambers, E. E.; Fountain, K. J. Removal of Triton X-100 from Plasma Samples Using Mixed-Mode Solid Phase Extraction (SPE). Waters, 2011.
    Consultar nota de aplicação.
  7. Schuhn, B. Reduction of Matrix Effects with the Agilent 1200 Infinity Series Online SPE Solution. Agilent Technologies, 2014.
    Consultar nota de aplicação.

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