O laboratório mede a incerteza. Mas ela serve para quê?

Na ISO/IEC 17025, a incerteza de medição passa a orientar decisões técnicas, avaliação da conformidade e confiabilidade dos resultados

A estimativa da incerteza de medição foi tratada, por muito tempo, por muitos laboratórios como uma exigência necessária para obtenção ou manutenção da acreditação segundo a ISO/IEC 17025. Elaboravam-se planilhas, calculavam-se componentes de incerteza e registrava-se um valor expandido que, na prática, raramente era utilizado nas decisões do dia a dia.

Essa visão veio mudando nessa última década. O amadurecimento da metrologia química, a consolidação das diretrizes da ISO/IEC 17025:2017, a publicação de documentos do ILAC e os recentes guias da Eurachem/CITAC reforçam que a incerteza não representa apenas uma característica estatística do resultado. Ela é um instrumento para avaliar risco, interpretar resultados, estabelecer regras de decisão e demonstrar que um método é adequado à finalidade proposta.

A incerteza acompanha todas as medições

Nenhuma medição é absolutamente exata. Mesmo quando o método apresenta excelente repetibilidade e utiliza instrumentos calibrados, diversos fatores podem influenciar o resultado obtido.

Entre eles estão a preparação da amostra, a calibração dos equipamentos, a pureza dos reagentes, a recuperação analítica, a estabilidade dos padrões, o desempenho do analista, as condições ambientais e o próprio modelo matemático utilizado para calcular o resultado.

O conceito de incerteza reúne essas diferentes contribuições e estima a faixa dentro da qual se espera encontrar o valor verdadeiro do mensurando, considerando um determinado nível de confiança. A própria Eurachem destaca que todo resultado analítico possui uma incerteza associada e que sua estimativa fornece ao cliente uma medida objetiva da qualidade do resultado analítico.

A ISO/IEC 17025 mudou a forma de enxergar a incerteza

A edição de 2017 da ISO/IEC 17025 ampliou significativamente o papel da incerteza de medição.

O laboratório continua responsável por identificar as principais fontes de variabilidade e estimar suas contribuições. Entretanto, o foco deixa de ser exclusivamente o cálculo matemático e passa a considerar como essa informação será utilizada na interpretação do resultado.

Segundo o ILAC, a estimativa da incerteza deve apoiar decisões técnicas sempre que o resultado puder influenciar a declaração de conformidade de um produto, material ou processo. Nesses casos, ignorar a incerteza significa aumentar o risco de decisões incorretas.

O verdadeiro valor está na decisão, não no número

Imagine um laboratório responsável por determinar o teor de um contaminante cujo limite regulatório seja 10,0 mg/kg.

Se o resultado obtido for 9,98 mg/kg, acompanhado de uma incerteza expandida de ±0,40 mg/kg, afirmar simplesmente que a amostra atende ao requisito pode ser inadequado. Existe uma probabilidade estatística de que o valor verdadeiro esteja acima do limite especificado.

Da mesma forma, um resultado ligeiramente acima da especificação também pode exigir uma análise mais cuidadosa antes de uma decisão definitiva.

É justamente nesse cenário que surgem as chamadas regras de decisão, previstas na ISO/IEC 17025 e detalhadas em documentos como o ILAC G8 e o guia da Eurachem para avaliação da conformidade. Esses documentos orientam como considerar a incerteza ao emitir declarações de conformidade e discutem conceitos como bandas de guarda (guard bands) e risco de falsas aceitações ou falsas rejeições.

Nem toda fonte de incerteza merece o mesmo esforço

Outro equívoco frequente é acreditar que todas as possíveis fontes de variabilidade precisam ser modeladas individualmente.

Na prática, a própria ISO/IEC 17025 adota uma abordagem baseada em significância. O laboratório deve identificar e considerar as contribuições relevantes para o resultado final, evitando esforços desproporcionais para componentes cujo impacto seja desprezível.

Essa abordagem torna o processo mais eficiente e direciona a atenção para os fatores que realmente afetam a qualidade metrológica da medição.

A validação do método também fornece informações valiosas

Nos últimos anos, outra mudança importante ganhou força.

Historicamente, muitos laboratórios calculavam a incerteza exclusivamente a partir de orçamentos analíticos detalhados, estimando separadamente dezenas de componentes individuais.

Hoje, documentos recentes da Eurachem/CITAC reconhecem que dados produzidos durante a validação do método, especialmente estudos de precisão intermediária e recuperação, podem fornecer estimativas robustas e representativas da incerteza global do procedimento, desde que devidamente planejados e documentados. Essa abordagem reduz a complexidade dos cálculos sem comprometer a confiabilidade das estimativas.

A incerteza fortalece o desenvolvimento analítico

Embora frequentemente associada a laboratórios acreditados, a incerteza também desempenha papel relevante durante o desenvolvimento de métodos analíticos.

Conhecer os principais componentes responsáveis pela variabilidade permite identificar oportunidades de melhoria, selecionar condições operacionais mais robustas e compreender melhor o comportamento do procedimento antes mesmo de sua validação.

Essa visão está alinhada aos princípios do Analytical Quality by Design (AQbD) e do gerenciamento do ciclo de vida analítico, nos quais o conhecimento do método passa a ser tão importante quanto sua validação final.

Além de cumprir um requisito, reduzir o risco

A maior contribuição da incerteza de medição talvez seja justamente mudar a forma como os resultados analíticos são interpretados.

Em vez de representar apenas um número anexado ao certificado, ela fornece informações objetivas sobre a confiabilidade da medição, apoia decisões relacionadas à conformidade, reduz o risco de classificações incorretas e fortalece a credibilidade técnica do laboratório perante clientes, organismos acreditadores e autoridades regulatórias.

À medida que novos documentos internacionais aprofundam as orientações para sua aplicação prática, a tendência é que a incerteza deixe definitivamente de ser vista como uma obrigação da acreditação e passe a ocupar o lugar que sempre lhe pertenceu: o de ferramenta essencial para a tomada de decisões baseada em evidências.

Referências

  • ISO/IEC 17025:2017. General requirements for the competence of testing and calibration laboratories.
  • JCGM 100:2008 (GUM). Evaluation of Measurement Data – Guide to the Expression of Uncertainty in Measurement.
  • ILAC G17:2021. Guidelines for Measurement Uncertainty in Testing.
  • ILAC G8:2019. Guidelines on Decision Rules and Statements of Conformity.
  • Eurachem/CITAC. Quantifying Uncertainty in Analytical Measurement (QUAM), 3rd ed.
  • Eurachem/CITAC. Evaluation of Measurement Uncertainty from In-house Precision and Recovery Data.1st ed., 2026.
  • Eurachem/CITAC. Guide to Quality in Analytical Chemistry. 4th ed., 2026.
  • Eurachem/CITAC. Use of Uncertainty Information in Compliance Assessment. 2nd ed., 2021.

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