Pesquisa da UFSCar analisa água de represa de Sorocaba usando bioindicadores

Embora ainda raro no Brasil, órgãos de avaliação ambiental europeus e norte-americanos já fazem uso corriqueiro de bioindicadores

Pesquisas realizadas desde 2013, pelo Laboratório de Estudos em Macroinvertebrados Bentônicos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), alertam sobre riscos cada vez maiores de degradação ambiental no reservatório de Itupararanga, formado pelo represamento das águas do rio Sorocaba. Coordenados por Eliane Pintor de Arruda, docente do Departamento de Biologia (DBio) do Campus Sorocaba da UFSCar, os estudos utilizam macroinvertebrados bentônicos como bioindicadores da qualidade da água, complementando assim análises mais convencionais de variáveis físico-químicas, insuficientes para a caracterização da integridade e da qualidade dos recursos hídricos.

Os ecossistemas aquáticos são constituídos, basicamente, por três diferentes comunidades de organismos, caracterizadas conforme seus hábitos de vida: a planctônica (composta por fitoplâncton, zooplâncton e bacterioplâncton); a nectônica (invertebrados, protozoários, peixes e mamíferos, dentre outros); e a bentônica, composta pelos organismos que vivem sobre ou no interior do substrato – leito dos rios, por exemplo -, como larvas de inseto, caramujos e minhocas de água doce. A fauna bentônica também é classificada segundo o seu tamanho, e os macroinvertebrados (com tamanho maior que 0,20 mm) destacam-se como bioindicadores, por sua capacidade de responder a diferentes níveis de contaminação, principalmente por mudanças na estrutura e composição de suas comunidades.

“O biomonitoramento analisa justamente as respostas dos organismos vivos a perturbações ambientais, geralmente causadas pelas atividades humanas. No caso dos macroinvertebrados bentônicos, a baixa diversidade e a grande abundância de poucas espécies desses animais – aquelas mais tolerantes a essas alterações – são, geralmente, características de ambientes em processo de degradação ou degradados. E foram estes os resultados que encontramos na represa de Itupararanga, associados a características físico-químicas da água e do sedimento, especialmente o elevado teor de matéria orgânica”, relata Arruda. A pesquisadora acrescenta que o uso de bioindicadores para avaliação da qualidade da água ainda não é muito comum no Brasil, embora sua utilização já seja corriqueira por órgãos de avaliação ambiental em países europeus e norte-americanos.

O trabalho específico na represa foi iniciado em 2013, a partir da pesquisa de mestrado de Vinícius Moraes Rodrigues no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Monitoramento Ambiental (PPGBMA) da UFSCar, orientada por Monica Jones Costa, também docente do DBio, com co-orientação de Arruda. Desde então, as coletas e análises vêm sendo realizadas anualmente. “A represa de Itupararanga, apesar da sua importância regional, ainda é pouco estudada. No entanto, os resultados que encontramos corroboram outros estudos já realizados, que mostram que ela vem sofrendo um processo de declínio da qualidade da água, devido à crescente ocupação irregular de suas margens por empreendimentos imobiliários e agrícolas”, afirma Arruda.

O reservatório de Itupararanga tem grande importância hídrica para a região onde está localizado, abastecendo as cidades de Votorantim, Ibiúna, São Roque e Sorocaba. A represa também é usada como área de lazer, para geração de energia elétrica, irrigação agrícola, pesca e controle de vazão do rio Sorocaba. “Ainda estamos concluindo a sistematização dos resultados, mas já identificamos a diminuição da diversidade de macroinvertebrados bentônicos. Além disso, já identificamos que os diferentes braços da represa são bastante homogêneos, ou seja, apresentam resultados semelhantes, o que naturalmente não deveria acontecer. Naturalmente, a região a montante – ou seja, mais longe da foz do rio – deveria estar mais impactada, uma vez que a tendência é que a contaminação fosse sendo diluída ao longo da represa. Isto, essa poluição difusa, pode ser um indicador de que os braços estão recebendo pequenas descargas de esgoto”, explica Arruda. “Esta é a água que a gente bebe, na qual as pessoas nadam, e a tendência é que, de pouquinho em pouquinho, ela fique extremamente poluída. Por isso, nossa expectativa é que esses resultados alertem a população, para que ela cobre do poder público as possíveis soluções”, conclui a pesquisadora da UFSCar.


Fonte: UFSCar / Mariana Pezzo


 

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