A coluna cromatográfica continua sendo o componente central da separação em cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC). Embora bombas, detectores e softwares tenham evoluído significativamente nas últimas décadas, grande parte da eficiência cromatográfica ainda depende das características físicas e químicas da fase estacionária.
Historicamente, o desenvolvimento desses materiais ocorreu por meio de processos de síntese com elevado grau de variabilidade. Alterações na composição química, nas condições reacionais ou na formação dos poros frequentemente modificavam simultaneamente diversas propriedades da partícula, tornando difícil prever o desempenho cromatográfico antes da fabricação.
Pesquisas apresentadas durante o 55º International Symposium on High Performance Liquid Phase Separations and Related Techniques (HPLC 2026) indicam que esse cenário pode estar mudando. O grupo liderado pelo professor Bo Zhang, da Xiamen University, propõe uma estratégia baseada em microfluídica para produzir partículas cromatográficas com arquitetura previamente planejada, aproximando o desenvolvimento de fases estacionárias de um verdadeiro processo de engenharia de materiais.
Da síntese estocástica ao controle determinístico
Na fabricação convencional de partículas de sílica para HPLC, parâmetros como tamanho da partícula, distribuição granulométrica, morfologia e estrutura de poros costumam estar fortemente interligados. Como consequência, modificar uma característica frequentemente altera várias outras ao mesmo tempo.
Segundo Zhang, esse acoplamento limita o controle sobre o desempenho final da coluna e explica por que boa parte do desenvolvimento ainda depende de sucessivas etapas de otimização experimental.
A proposta apresentada no HPLC 2026 utiliza microgotículas produzidas por sistemas microfluídicos para definir previamente a geometria das partículas. Durante a solidificação por processo sol-gel, o confinamento espacial permite preservar elevada esfericidade, distribuição uniforme de tamanho e excelente monodispersidade. Depois de controlar a morfologia, torna-se possível ajustar separadamente a arquitetura dos poros.
No P&D, o desenvolvimento deixa de depender exclusivamente da experiência empírica do pesquisador e passa a seguir princípios de projeto racional.
Arquitetura de poros como variável de engenharia
Outro aspecto de destaque é a possibilidade de controlar diferentes níveis de porosidade de forma independente.
Utilizando formulações multicomponentes dentro das microgotículas, os pesquisadores demonstraram ser possível ajustar mesoporos, macroporos e canais perfusivos sem comprometer a uniformidade da partícula. O grupo também relatou a obtenção de diferentes arquiteturas mesoporosas ordenadas, resultado considerado incomum em materiais cromatográficos esféricos produzidos por rotas convencionais.
Esse controle estrutural tem impacto direto na transferência de massa, um dos fatores que determinam eficiência, velocidade de separação e capacidade de carga das colunas cromatográficas.
O reflexo na equação de Van Deemter
Os ganhos observados vão além da engenharia de materiais.
Os resultados apresentados indicam redução significativa da contribuição do termo A da equação de Van Deemter, relacionado aos diferentes caminhos percorridos pelas moléculas ao atravessar o leito cromatográfico. A elevada uniformidade das partículas reduz a dispersão por múltiplos caminhos e melhora a eficiência da separação. O grupo também relatou redução aproximada de 56% na resistência à transferência de massa em determinadas arquiteturas mesoporosas e desempenho cromatográfico superior ao obtido com partículas convencionais polidispersas.
Embora os resultados ainda estejam associados ao ambiente de pesquisa, eles demonstram como o controle estrutural da fase estacionária pode influenciar diretamente parâmetros clássicos da teoria cromatográfica.
Mais do que partículas menores
Nas últimas duas décadas, grande parte da evolução das colunas comerciais concentrou-se na redução do diâmetro das partículas, no desenvolvimento de materiais superficialmente porosos (core-shell) e na melhoria da estabilidade química das sílicas híbridas.
A abordagem apresentada em 2026 aponta para uma mudança de foco.
Em vez de buscar apenas partículas menores, o objetivo passa a ser controlar a organização tridimensional do material desde sua fabricação. Essa estratégia amplia as possibilidades de desenvolvimento de fases estacionárias específicas para diferentes aplicações, incluindo metabolômica, proteômica, bioanálises e caracterização de biomoléculas complexas.
Perspectivas para os laboratórios
Os autores reconhecem que a transferência dessa tecnologia para produção industrial ainda depende da superação de desafios relacionados à escalabilidade, durabilidade dos dispositivos microfluídicos e fabricação reprodutível em larga escala. Entretanto, o conceito apresentado representa uma mudança importante na forma como materiais cromatográficos podem ser concebidos.
Para analistas que trabalham diariamente com desenvolvimento e validação de métodos, essa evolução pode significar, no futuro, colunas projetadas para aplicações muito mais específicas, com seletividade previsível, menor dispersão de banda e desempenho otimizado desde sua concepção.
Mais do que uma evolução incremental, trata-se da transição da cromatografia baseada em otimização empírica para uma cromatografia orientada por engenharia de materiais.
Referência principal
Zhang B.; Matheson A. HPLC 2026 Preview: Bo Zhang on Moving Towards Precision Design and Manufacture of Chromatographic Materials. Chromatography Online (LCGC International), 4 jun. 2026.
Referências complementares
- HPLC 2026, 55th International Symposium on High Performance Liquid Phase Separations and Related Techniques. Programa científico oficial.
- The Chromatographic Society. Jubilee Medal 2026 Winner: Professor Bo Zhang. 2026.






