Emissões de gás carbônico podem ter batido novo recorde em 2022

É estimado um aumento de 1% nas emissões de gás carbônico (CO²), provenientes de combustíveis fósseis, em 2022, de acordo com um artigo científico publicado na revista Nature. Segundo essas estimativas, as emissões alcançariam 37,5 bilhões de toneladas e quebrariam o recorde atual de emissões, segundo dados preliminares apresentados na COP27, Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas. E o Brasil, mesmo não sendo o maior emissor de dióxido de carbono, tem um papel fundamental graças às emissões associadas à mudança de uso da terra, ou seja, às queimadas e à criação de gado.

Em 2020, por conta da pandemia, enquanto o mundo registrou uma queda de 7% nas emissões totais de gases do efeito estufa, o Brasil registrou um aumento de 9,5% que, de acordo com o Observatório do Clima, o torna, provavelmente, um dos únicos países do mundo a registrar alta neste período.

Sônia Barros de Oliveira – Foto: IEA/USP

A professora do Instituto de Geociências (IGc) da USP Sônia Barros de Oliveira explica que o aumento nas emissões de CO² impacta significativamente no aumento das temperaturas do planeta. “Se a tendência de aumento continuar, em breve, o dióxido de carbono liberado na atmosfera será suficiente para aumentar a temperatura da Terra em 1,5°C acima das temperaturas pré-industriais, que é o limite estabelecido pelo acordo climático de Paris, em 2015, para evitar consequências mais graves para o planeta”, analisa.

No cenário global, a China tem uma previsão de queda de 0,9%, para 2022, mas apesar disso ainda é o maior emissor de CO² em níveis absolutos. Na análise per capita, o maior emissor segue sendo os Estados Unidos, com uma projeção de aumento de 1,5%.

A pandemia trouxe regressão para o gráfico das emissões de CO² em nível mundial. Apesar disso, o fim do lockdown e a guerra da Ucrânia aceleraram a retomada. “No cenário pós-covid, as emissões subiram, apesar da guerra da Ucrânia, que limitou a exportação do gás da Rússia. Isso fez com que alguns países passassem a usar combustíveis fósseis mais poluentes, como carvão, ao invés do gás”, afirma Sônia. A professora também aponta a retomada das viagens aéreas como responsável pelo aumento graças aos combustíveis das aeronaves.

Marcos Buckeridge – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O professor do Instituto de Biociências (IB) da USP Marcos Buckeridge explica que a educação é o primeiro passo para que o País caminhe na direção da redução das emissões de carbono. “Não a educação em si só dos jovens, porque os jovens já estão convencidos da importância das mudanças climáticas, mas principalmente das pessoas maduras, das pessoas que estão agora ativas. É muito importante que as pessoas tenham noção da importância que é essa questão de reduzir o gás carbônico para que a gente proteja as próximas gerações.”

Mercado de Carbono

Para mitigar os efeitos da presença do principal gás do efeito estufa na atmosfera foi criado o mercado de carbono. O mercado funciona como um sistema de recompensas. Se uma empresa ou indústria produz dentro de um limite estabelecido de emissões de CO² permitida, ou possua uma adequada política para compensar o meio ambiente, como o plantio de árvores, essa empresa/indústria ganha créditos.

São os chamados créditos de carbono, que podem ser negociados com outras empresas/indústrias que não possuem tais políticas e que seriam, grosso modo, mais poluentes. Dessa forma, a empresa mais sustentável recebe incentivos para ajudar o meio ambiente, enquanto a empresa mais poluente trabalha para reduzir as emissões a fim de reduzir gastos.

Marcos Fava Neves – Foto: Arquivo Pessoal

O professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP), da USP, Marcos Fava Neves, explica que, a princípio, o mercado de carbono surgiu como uma iniciativa não governamental, e que isso acabou atrasando a regulamentação. “Toda regulamentação vem no sentido de colocar regras do jogo, de poder melhorar o ambiente institucional para possibilitar os investimentos, possibilitar as trocas.”

Buckeridge concorda com Neves e aponta que, para o estabelecimento desse mercado, é necessário uma regulamentação adequada. “Não adianta nada a gente ter a vontade política e a vontade das empresas de entrarem no mercado, se nós não tivermos isso regulamentado. Nesse sentido é que a gente precisa ter obrigatoriamente a regulamentação sendo feita pelos políticos. Esse é um dos papéis que a política tem que fazer no mundo para acelerar o processo”, ponderou.

O primeiro passo para que essa regulamentação aconteça já foi dado com a criação do decreto nº 11.075 pelo governo federal, em maio deste ano. A partir dele, foi criado um sistema único de registro chamado Sistema Nacional de Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Sinare). Os procedimentos estabelecidos no decreto apontam o Sinare como responsável pela elaboração de regras específicas de funcionamento do mercado de carbono.

O decreto do governo federal também regulamenta os planos setoriais, que seriam espécies de “projetos” que atuam para mitigação das mudanças climáticas. De acordo com o documento, esses “projetos” precisam ser aprovados por uma comissão interministerial, composta pelos Ministérios do Meio Ambiente e da Economia, que, segundo Buckeridge, auxilie no cumprimento das diretrizes estabelecidas na COP e impulsione o País a adentrar em uma economia verde. “É bastante benéfico para o Brasil utilizar essa lei como guia para que a gente se torne melhor no que se refere a mudanças climáticas globais.”

Fonte: Jornal da USP

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