Analytical Quality by Design, da teoria regulatória à prática real no desenvolvimento de métodos analíticos

1. Introdução

O desenvolvimento de métodos analíticos tem enfrentado desafios crescentes nas últimas décadas. Matrizes mais complexas, requisitos regulatórios mais rigorosos e a necessidade de resultados reprodutíveis ao longo de todo o ciclo de vida do método exigem abordagens mais estruturadas e cientificamente fundamentadas. Nesse contexto, o Analytical Quality by Design (AQbD) surge como uma evolução natural do pensamento analítico, deslocando o foco de métodos empiricamente ajustados para estratégias baseadas em compreensão profunda do processo analítico.

Inspirado nos princípios do Quality by Design aplicados ao desenvolvimento farmacêutico, o AQbD propõe um modelo sistemático para planejar, desenvolver, validar e manter métodos analíticos robustos, com menor dependência de ajustes corretivos e maior previsibilidade de desempenho.

2. Fundamentos conceituais do Analytical Quality by Design

O AQbD parte do princípio de que a qualidade de um método analítico não deve ser testada ao final de seu desenvolvimento, mas construída desde as etapas iniciais. Essa construção se apoia na definição clara de objetivos analíticos, no entendimento das variáveis críticas do método e na avaliação sistemática de riscos.

O primeiro elemento estruturante é o Analytical Target Profile (ATP), que descreve, de forma objetiva, o propósito do método e os requisitos mínimos de desempenho, como exatidão, precisão, seletividade e faixa de aplicação. O ATP funciona como um guia técnico, orientando todas as decisões subsequentes.

A partir desse perfil, são identificados os atributos críticos do método, que refletem diretamente a qualidade do resultado analítico, e os parâmetros críticos, que influenciam esses atributos. Essa distinção permite compreender, de forma racional, como pequenas variações operacionais podem impactar o desempenho global do método.

3. Avaliação de risco e compreensão do método

Um dos diferenciais mais relevantes do AQbD é a incorporação sistemática da avaliação de risco ao desenvolvimento analítico. Ferramentas clássicas de análise de risco, aplicadas de forma técnica e objetiva, permitem priorizar variáveis, reduzir complexidade experimental e direcionar esforços para os fatores realmente críticos.

Essa etapa não tem caráter burocrático. Pelo contrário, ela contribui para um entendimento mais profundo do método, promovendo decisões fundamentadas e reduzindo a dependência de tentativas e erros. A consequência direta é o desenvolvimento de métodos mais estáveis e previsíveis, mesmo quando aplicados em diferentes equipamentos, analistas ou laboratórios.

4. Design space analítico e robustez metodológica

Com base na compreensão das variáveis críticas, o AQbD introduz o conceito de design space analítico, definido como a combinação de condições operacionais dentro das quais o método mantém desempenho adequado.

Diferentemente das abordagens tradicionais, que fixam parâmetros únicos e rígidos, o design space reconhece a existência de uma região operacional segura. Essa flexibilidade controlada é particularmente relevante para métodos cromatográficos, espectroscópicos e físico-químicos, nos quais pequenas variações são inevitáveis na rotina laboratorial.

A definição desse espaço operacional não apenas aumenta a robustez do método, mas também reduz a necessidade de revalidações frequentes, desde que as condições permaneçam dentro dos limites estabelecidos.

5. Impactos do AQbD na validação analítica

A validação de métodos desenvolvidos sob a abordagem AQbD apresenta características distintas quando comparada a métodos tradicionais. Em vez de uma validação pontual e reativa, o processo passa a ser consequência natural do conhecimento acumulado durante o desenvolvimento.

Os estudos de precisão, exatidão, linearidade e seletividade deixam de ser exercícios isolados e passam a refletir um método já compreendido em sua totalidade. Isso resulta em dados mais consistentes, menor variabilidade e maior confiança nos resultados analíticos.

Além disso, a abordagem favorece a transferência analítica, reduzindo discrepâncias entre laboratórios e facilitando a implementação em ambientes produtivos e regulados.

6. Aplicações práticas em laboratórios de rotina

Embora inicialmente associado à indústria farmacêutica, o AQbD tem demonstrado aplicabilidade crescente em diferentes segmentos da química analítica. Métodos para controle de qualidade de insumos, produtos acabados, alimentos, análises ambientais e matérias-primas químicas têm se beneficiado da abordagem estruturada proposta pelo AQbD.

Laboratórios que adotam essa filosofia relatam redução de retrabalho, menor incidência de resultados fora de especificação por causas analíticas e maior eficiência no gerenciamento do ciclo de vida dos métodos.

7. Desafios e limitações atuais

Apesar de suas vantagens, a implementação do AQbD ainda enfrenta desafios. A principal barreira não é técnica, mas cultural. A transição de uma abordagem empírica para um modelo baseado em planejamento e compreensão exige mudança de mentalidade, capacitação técnica e investimento inicial em desenvolvimento.

Outro ponto crítico é o equilíbrio entre profundidade científica e viabilidade operacional. O AQbD não deve ser interpretado como um excesso de estudos experimentais, mas como uma forma inteligente de planejar experimentos com propósito claro.

8. Perspectivas futuras para o AQbD

As revisões científicas mais recentes indicam que o AQbD tende a se consolidar como prática padrão no desenvolvimento analítico moderno. Sua integração com ferramentas estatísticas, automação laboratorial e digitalização de dados amplia ainda mais seu potencial.

À medida que os laboratórios buscam maior eficiência, rastreabilidade e sustentabilidade, o AQbD se apresenta não como uma exigência regulatória isolada, mas como uma estratégia técnica coerente com os desafios atuais da química analítica.

9. Conclusão

O Analytical Quality by Design representa uma mudança estrutural na forma como métodos analíticos são concebidos, desenvolvidos e mantidos. Ao deslocar o foco do ajuste empírico para a compreensão científica, o AQbD promove métodos mais robustos, previsíveis e alinhados às exigências regulatórias e técnicas atuais.

Tata-se de uma evolução natural da química analítica, na qual qualidade, conhecimento e eficiência caminham de forma integrada ao longo de todo o ciclo de vida do método.

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